Como precificar doces para revenda: a margem dos dois lados
Na revenda, o seu preço precisa caber na margem de outra pessoa. As faixas de desconto por volume, o piso que não se atravessa e a conta dos dois lados.
Como precificar doces para revenda começa pelo mesmo custo de sempre e termina numa margem menor, nunca num preço abaixo do custo: o brigadeiro que custa R$ 0,80 e vende a R$ 1,45 no varejo sai a R$ 1,20 num pedido de 300 unidades, ainda com R$ 0,40 de lucro por bolinha. O desconto vem do volume, não da sua margem inteira.
A proposta chega sempre parecida. Uma cafeteria, uma loja de conveniência, uma amiga que vende no trabalho: “eu levo bastante, mas preciso de um preço melhor”. A frase é sedutora porque resolve o seu problema mais chato, que é vender. No entanto, ela esconde uma conta que quase ninguém faz na hora: o seu preço agora precisa caber dentro da margem de outra pessoa, e continuar cobrindo a sua.
Como precificar doces para revenda: o problema das duas margens
Na venda direta existe uma conta. Na revenda existem duas, empilhadas, e o consumidor final paga as duas.
Você vende a R$ 1,20. A revendedora vende a R$ 2,00. O cliente dela paga R$ 2,00 por um docinho que, na sua encomenda direta, sairia por R$ 1,45. Se o preço final ficar alto demais pro mercado dela, ela não vende, e se ela não vende, ela não repete o pedido. O seu preço de atacado precisa deixar espaço pra ela sem esmagar você.
É por isso que precificar revenda não é “dar desconto”. É montar uma cadeia que funciona nos dois lados. Faça a conta de trás pra frente:
- Qual o preço final que o cliente dela aceita pagar? R$ 2,00.
- Quanto ela precisa ganhar por unidade pra valer o esforço dela? R$ 0,80.
- Sobra R$ 1,20 pra você.
- O seu custo é R$ 0,80, então R$ 1,20 deixa R$ 0,40. Fecha.
Se no passo 4 o número tivesse dado R$ 0,05, a resposta correta não seria aceitar e torcer. Seria dizer que não cabe.
As faixas de desconto por volume
Desconto de revenda funciona melhor escalonado e escrito. Assim você para de negociar caso a caso, e cada faixa tem uma justificativa real de produção.
Valores de exemplo, com o brigadeiro que custa R$ 0,80 a unidade. Troque pelos seus antes de fechar tabela.
| Quantidade por pedido | Preço por unidade | Margem sobre insumo e mão de obra | Lucro por unidade |
|---|---|---|---|
| Até 99 (varejo) | R$ 1,45 | 50% | R$ 0,65 |
| 100 a 299 | R$ 1,30 | 43% | R$ 0,50 |
| 300 a 599 | R$ 1,20 | 38% | R$ 0,40 |
| 600 ou mais | R$ 1,10 | 32% | R$ 0,30 |
Repare no que cai e no que não cai. O preço desce 24% da primeira à última linha, a margem desce de 50% para 32%, e o lucro por unidade cai pela metade. O que não muda em nenhuma linha é o custo de R$ 0,80. Ele é o piso, e piso não se negocia. Abaixo dele você está pagando pra trabalhar, e nenhum volume conserta isso.
A justificativa de cada faixa também é concreta: 300 bolinhas saem em duas fornadas grandes em vez de seis pequenas, a compra de insumo fica melhor, a embalagem vai em caixa coletiva em vez de individual, e a entrega é uma viagem só. Esse é o dinheiro que financia o desconto. Quando a economia não existe, o desconto sai da sua margem, e aí não é atacado, é doação com nota fiscal.

A conta dos dois lados, lado a lado
Vale olhar a cadeia inteira de uma vez, porque ela costuma surpreender:
| Você (produz) | A revendedora | |
|---|---|---|
| Custo por unidade | R$ 0,80 | R$ 1,20 |
| Preço de venda | R$ 1,20 | R$ 2,00 |
| Lucro por unidade | R$ 0,40 | R$ 0,80 |
Sim, ela ganha o dobro por unidade. E sim, isso é normal. Ela assume o trabalho de vender, a vitrine, o cliente que reclama e o doce que sobrou no fim do dia. Você assume a produção e recebe o pedido inteiro de uma vez.
A troca só fecha no volume. Compare a semana:
- Varejo: 100 unidades a R$ 0,65 de lucro dão R$ 65 na semana, com você vendendo bolinha por bolinha.
- Revenda: 300 unidades a R$ 0,40 dão R$ 120 na semana, com uma conversa só.
Quase o dobro do lucro, com uma fração do esforço comercial. É por isso que a revenda vale a pena quando o volume aparece de verdade.
Pedido mínimo, prazo e embalagem
Três regras que evitam quase todo problema de revenda, e que precisam estar escritas antes da primeira venda:
- Pedido mínimo. Cem unidades funciona bem: é uma fornada cheia e a economia de escala existe. Sem mínimo, você acaba com o preço de 400 unidades num pedido de 40.
- Prazo de produção. Revenda é lote, e lote precisa de agenda. Combine dois ou três dias, e não aceite “pra amanhã” com preço de atacado.
- Embalagem coletiva. Na revenda, o doce vai em caixa de cem, não embalado um a um com laço. Se o revendedor quiser embalagem individual, isso é outro produto e outro preço, porque a embalagem entra na conta por fora, sem margem em cima.
O detalhe de como cada custo entra está no guia de como precificar encomendas, e a conta unitária do docinho mais pedido, no guia de quanto cobrar por um brigadeiro. Se o pagamento vier em cartão ou com prazo, o guia de taxa de cartão na confeitaria mostra por que a taxa entra por cima do preço, nunca por dentro. Quando você entrega, o guia de frete e entrega de doces resolve a parte do transporte.
Quando a revenda não vale a pena
Nem toda proposta merece um sim. Três casos em que a conta não fecha, por mais simpático que seja o pedido:
- O preço final dela é baixo demais. Se o cliente da revendedora só paga R$ 1,50, sobra pouco pros dois. O problema é o mercado dela, e ele não se resolve com desconto seu.
- O volume prometido é hipotético. “Se vender bem, eu levo mil por mês” não é volume, é intenção. Dê o preço da faixa que ela está comprando hoje, e suba a faixa quando o pedido subir.
- O produto é trabalhoso demais. Doce fino, personalizado e de acabamento à mão não escalam. A margem menor da revenda só se sustenta quando o volume baixa o seu custo por unidade, e no bem-casado ele não baixa: continua sendo uma tarde amarrando laço. Esses casos estão no guia de como precificar doces finos.
Existe ainda um risco que ninguém coloca na planilha: o cliente de revenda é um cliente só. Ele responde por metade da sua produção e some quando achar preço melhor, e aí você fica com a capacidade montada e sem quem compre. Não é motivo pra recusar, é motivo pra não largar a venda direta enquanto isso.
Pra montar as suas faixas com os seus números, a calculadora de precificação de doces mostra o preço, o lucro por unidade e o CMV mudando conforme você mexe na margem: baixe de 50% para 38% e veja onde o lucro para de compensar. O método completo está no guia de como precificar doces, e a tabela de preços por produto, na tabela de precificação de doces.
Revenda boa é a que sobrevive à segunda conta. Se o seu preço de atacado cobre o custo, paga a sua hora e ainda deixa a revendedora ganhar dinheiro, você montou um canal. Se ele só fecha porque você tirou a sua mão de obra da conta, você montou um favor de longo prazo. Qual dos dois está na sua tabela hoje?
Ainda em dúvida?
01 Como precificar doces para revenda?
Calcule o custo real da unidade, defina o preço de varejo e só então desça a margem por faixa de volume, nunca abaixo do custo. No exemplo deste guia, o brigadeiro custa R$ 0,80, vende a R$ 1,45 no varejo e sai a R$ 1,20 num pedido de 300 unidades, ainda com R$ 0,40 de lucro por bolinha. O preço de revenda é margem menor, jamais margem negativa.
02 Qual desconto dar para quem revende doces?
De 10% a 25% sobre o preço de varejo, escalonado por quantidade: 100 unidades a R$ 1,30, 300 a R$ 1,20 e 600 ou mais a R$ 1,10. Cada faixa precisa de uma justificativa real, como uma fornada em vez de três ou uma entrega só. Desconto sem economia por trás é lucro que você entrega de presente.
03 Qual o pedido mínimo para revenda de doces?
Cem unidades é um mínimo que funciona pra maioria: é uma fornada cheia, dá pra embalar de uma vez e a economia de escala existe de verdade. Abaixo disso, você tem o trabalho do atacado com o volume do varejo. Deixe o mínimo escrito na tabela de preços, junto com o prazo de produção, antes que alguém peça 40 unidades com preço de 400.
04 Como calcular a margem do revendedor?
Comece pelo preço final que o cliente dele aceita pagar e volte. Se a revendedora vende o brigadeiro a R$ 2,00 e quer R$ 0,80 por unidade, ela consegue pagar R$ 1,20 pra você. O seu trabalho é conferir se R$ 1,20 cobre o seu custo de R$ 0,80 com margem que valha a produção. Se não couber, o problema não é o desconto: é o preço final dela.
05 Vale a pena vender doces para revenda?
Vale quando o volume compensa a margem menor. No exemplo, 100 unidades por semana no varejo dão R$ 65 de lucro; 300 na revenda, com margem menor, dão R$ 120. Você ganha previsibilidade e para de gastar tempo vendendo. Perde margem por unidade e ganha um cliente que some se achar preço melhor, então não abandone a venda direta.
Fontes
Pare de cobrar no chute.
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